Enquanto o Brasil digere o choque pós-eleição, o mercado global volta os olhos para Washington. O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, iniciou nesta terça-feira (27) a sua reunião de política monetária, a penúltima de 2026. O anúncio da decisão está previsto para quarta-feira (28), às 15h no horário de Brasília (14h em Nova York).
O que o mercado espera
A taxa básica americana está na faixa de 3,75% a 4% ao ano. Os contratos futuros de juros indicam cerca de 90% de probabilidade de manutenção nesta reunião. Além disso, há o calendário político: as eleições de meio de mandato nos EUA acontecem na próxima semana, e o Fed costuma evitar mudanças às vésperas de votações.
O ponto de atenção, portanto, não é tanto a decisão em si, mas o comunicado e a entrevista do presidente do Fed, Kevin Warsh. Os investidores querem saber se a instituição está disposta a subir os juros até o fim do ano. Segundo a Bloomberg, o mercado já precifica uma probabilidade elevada de alta em dezembro.
Por que se fala em alta de juros nos EUA?
O principal motivo é a energia. Os preços do petróleo dispararam nas últimas semanas com as tensões no Oriente Médio, incluindo ataques reivindicados pelos houthis, do Iêmen, contra instalações petrolíferas da Arábia Saudita. O barril do tipo Brent fechou a segunda-feira perto de US$ 116, e o WTI, referência americana, acima de US$ 100. Combustível caro se espalha pelos preços de transporte e produção e dificulta o controle da inflação.
Na segunda-feira, a notícia de esforços diplomáticos para reduzir a tensão entre EUA e Irã ajudou o petróleo a recuar um pouco, o que deu fôlego a Wall Street. O S&P 500 subiu 0,70% e o Nasdaq avançou 0,83%.
Como os juros americanos afetam o Brasil
Os juros dos EUA funcionam como uma espécie de régua para o dinheiro do mundo inteiro. A lógica é a seguinte:
- Juros mais altos lá: aplicar em títulos americanos, considerados os mais seguros do mundo, fica mais atraente. Parte do dinheiro sai de países emergentes, como o Brasil, e o dólar tende a subir frente ao real.
- Juros estáveis ou em queda lá: investidores buscam retornos maiores em outros mercados, o que pode favorecer a bolsa brasileira e o real.
- Diferencial de juros: o Banco Central do Brasil observa essa diferença ao decidir a Selic. Se o Fed endurecer o tom, fica mais difícil para o Copom cortar juros aqui, especialmente com o dólar já pressionado pelo resultado da eleição.
Em uma semana em que o real já perdeu força, um Fed com tom mais duro, ou seja, mais disposto a subir juros, seria mais um fator de pressão sobre o câmbio. Um comunicado mais tranquilo, por outro lado, pode dar algum alívio.
Agenda da semana nos mercados globais
| Dia | Evento |
|---|---|
| Terça (27) | Início da reunião do Fed; balanço da Visa após o fechamento |
| Quarta (28) | Decisão de juros do Fed, às 15h (Brasília) |
| Quinta (29) | Decisão do Banco Central Europeu (BCE) |
| Sexta (30) | Decisão do Banco do Japão |
| Ao longo da semana | Balanços de Microsoft, Alphabet e Amazon |
Os balanços das gigantes de tecnologia serão observados de perto porque mostram se os investimentos bilionários em inteligência artificial estão gerando retorno. A empolgação com o setor ganhou força com o pedido de abertura de capital de uma das principais empresas de IA, assunto que explicamos nesta reportagem.
O que observar na quarta-feira
- Se o comunicado mencionar riscos de inflação ligados à energia com mais ênfase;
- Se o presidente do Fed deixar a porta aberta, ou fechada, para uma alta em dezembro;
- A reação do dólar global (índice DXY) e dos juros dos títulos americanos de 10 anos;
- O reflexo no dólar frente ao real no fim da tarde.