O primeiro pregão depois do segundo turno das eleições foi um dos mais turbulentos da história recente da bolsa brasileira. Na segunda-feira (26), um dia após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL), o Ibovespa despencou 13,88% e terminou o dia aos 176.608 pontos. Foi uma perda de mais de 28 mil pontos em uma única sessão.

No mesmo dia, o dólar comercial saltou 8,21% e fechou cotado a R$ 5,403, depois de encostar em R$ 5,60 durante a manhã. Na sexta-feira anterior, a moeda tinha terminado abaixo de R$ 5,00.

Por que a bolsa caiu tanto?

A explicação mais citada por analistas é uma combinação de expectativa frustrada e preocupação com as contas públicas. Depois do primeiro turno, em que a oposição saiu na frente, boa parte dos investidores passou a apostar em uma troca de governo e em um ajuste fiscal mais rápido. Com isso, compraram ações e venderam dólares. O Ibovespa chegou a superar pela primeira vez os 200 mil pontos e acumulava alta de mais de 10% em outubro até sexta-feira.

Quando o resultado das urnas veio no sentido contrário, essas posições foram desfeitas de uma vez. Na avaliação de gestores ouvidos pela imprensa, o mercado não estava apenas devolvendo o ganho recente: passou a cobrar um prêmio de risco maior até que o novo governo mostre como pretende equilibrar receitas e despesas nos próximos anos.

O que é o circuit breaker acionado pela B3

Logo nos primeiros minutos de negociação, a queda passou de 10% e a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios por 30 minutos para conter movimentos de pânico. Foi a primeira vez desde março de 2020. Mesmo após a retomada, o índice chegou a cair mais de 17% na mínima do dia, aos 169.516 pontos. Explicamos o funcionamento da trava em detalhes neste guia sobre o circuit breaker.

Quem mais perdeu e quem ganhou

Das ações do índice, apenas um punhado terminou no azul, todas ligadas à exportação, que se beneficiam do dólar mais caro porque recebem em moeda estrangeira.

AçãoVariação no dia
Suzano (SUZB3)+10,08%
Embraer (EMBJ3)+8,89%
WEG (WEGE3)+4,21%
Vale (VALE3)+4,01%
Petrobras (PETR4)-8,18%
Itaú Unibanco (ITUB4)-13,66%
Bradesco (BBDC4)-21,70%
Banco do Brasil (BBAS3)-29,33%
B3 (B3SA3)-36,28%
Magazine Luiza (MGLU3)-58,23%

Os setores mais sensíveis a juros e ao consumo interno, como bancos, varejo, construtoras e shoppings, foram os mais castigados. O índice de small caps, que reúne empresas menores, recuou quase 27%.

Juros futuros e risco-país também subiram

O tombo não ficou restrito às ações. As taxas dos contratos de DI, que indicam quanto o mercado cobra para emprestar ao país no futuro, subiram mais de 2 pontos percentuais nos vencimentos longos. O CDS de 5 anos do Brasil, termômetro do risco-país, avançou cerca de 26%, para 151,6 pontos, o maior nível desde julho de 2025. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana e recomprou cerca de R$ 7,1 bilhões em papéis para acalmar o mercado. Veja o que isso significa para quem tem Tesouro Direto.

O que o governo e os bancos estão dizendo

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em entrevista que pretende mudar a lei, ou até a Constituição se for preciso, para buscar formalmente o centro da meta fiscal ainda neste ano. Durigan, porém, ainda não sabe se continuará no cargo: segundo a colunista Bela Megale, de O Globo, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, é o principal cotado para assumir a Fazenda no novo mandato.

Entre os bancos internacionais, o JPMorgan rebaixou sua recomendação para o real e para os títulos brasileiros, e o Goldman Sachs apontou o Orçamento de 2027 e a escolha do ministro da Fazenda como pontos centrais para os ativos. Há também quem veja oportunidade: a casa de pesquisa Gavekal argumentou que juros reais elevados e a força das commodities continuam sendo atrativos e que a correção pode abrir pontos de entrada para quem tem horizonte longo.

O que muda no seu bolso

  • Viagens e compras em dólar: com a moeda acima de R$ 5,40, passagens, hospedagens e compras internacionais ficam mais caras de imediato.
  • Inflação: um câmbio mais alto, se persistir, encarece produtos importados e insumos, o que pode pressionar os preços nos próximos meses.
  • Crédito: a alta dos juros futuros tende a encarecer financiamentos de prazo longo, como o imobiliário, e a dificultar novos cortes da Selic.
  • Investimentos: quem tem ações viu o patrimônio encolher no papel. Especialistas de corretoras como a XP recomendaram evitar decisões tomadas no pânico e revisar a diversificação da carteira.

E agora?

Na manhã desta terça-feira (27), o principal ETF de ações brasileiras negociado em Nova York (EWZ) operava em alta no pré-mercado, sinalizando uma tentativa de correção após o tombo. Mesmo com a queda de segunda-feira, o Ibovespa ainda acumula alta de 9,61% em 2026. Daqui para a frente, os sinais mais observados serão o nome escolhido para a Fazenda, o tamanho do ajuste nas contas públicas e a decisão do Copom em 4 de novembro.