Quem abriu o aplicativo do Tesouro Direto na segunda-feira (26) levou um susto. No primeiro pregão após o segundo turno, as taxas dos títulos públicos de prazo mais longo tiveram a maior alta já registrada, superando até o choque de março de 2020. O Tesouro Prefixado 2032 chegou a oferecer 15,78% ao ano, e os títulos atrelados à inflação (Tesouro IPCA+) tiveram a segunda maior alta da série.
Para quem quer comprar, isso significa taxas mais altas. Para quem já tinha os títulos, o saldo no extrato encolheu. Parece contraditório, mas tem explicação.
Por que o saldo do Tesouro Direto caiu?
Os títulos do Tesouro são atualizados diariamente pela chamada marcação a mercado. O preço de um título é o valor presente do que ele vai pagar no futuro. Quando as taxas de mercado sobem, os títulos antigos, que pagam taxas menores, ficam menos atraentes e o preço deles cai.
Exemplo simples: você comprou um prefixado que paga 12,8% ao ano. Hoje, um título novo do mesmo prazo paga 15%. Ninguém pagaria o mesmo preço pelo seu título, que rende menos. Para vendê-lo hoje, seria preciso aceitar um desconto. Esse desconto é a perda que aparece no extrato.
Na sexta-feira anterior, os contratos de DI com vencimento em 2029 estavam perto de 12,6% ao ano. Na segunda, fecharam em torno de 15,25%, uma alta de mais de 2,6 pontos percentuais em um dia.
Quando a perda é de verdade?
A perda só se concretiza se você vender o título antes do vencimento. Se mantiver o papel até a data final, o Tesouro paga exatamente a rentabilidade contratada no dia da compra, independentemente das oscilações no caminho. Por isso, para quem comprou pensando no vencimento e não vai precisar do dinheiro antes, a queda no extrato tende a ser apenas temporária.
Já quem precisa resgatar agora pode acabar recebendo menos do que aplicou, especialmente em títulos longos e prefixados, que são os mais sensíveis à variação dos juros.
Como cada tipo de título reage
| Título | Sensibilidade à alta dos juros | Comentário |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | Muito baixa | Acompanha a taxa básica; oscila pouco e costuma ser usado como reserva de emergência. |
| Tesouro Prefixado | Média a alta | Quanto mais longo o prazo, maior a oscilação de preço. |
| Tesouro IPCA+ | Alta nos prazos longos | Protege da inflação até o vencimento, mas oscila bastante no caminho. |
Gestores ouvidos pela imprensa apontaram o Tesouro Selic como porto seguro no curto prazo, justamente por quase não sofrer com a marcação a mercado.
O que o Tesouro Nacional fez
Para acalmar o mercado, o Tesouro cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana, mantendo apenas o leilão de títulos ligados à Selic. Também fez uma operação de recompra de cerca de R$ 7,1 bilhões em títulos prefixados, devolvendo dinheiro aos investidores que quiseram vender e aliviando a pressão sobre as taxas.
E a Selic, vai subir?
A taxa Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, quando o Copom fez um corte de 0,25 ponto. A próxima decisão está marcada para 4 de novembro. Antes da eleição, o boletim Focus apontava Selic de 13,25% no fim de 2026, o que indicava mais cortes. Depois do resultado das urnas, porém, o mercado de juros passou a precificar a possibilidade de alta em novembro, e economistas como os da Capital Economics avaliam que novos cortes neste ano ficaram menos prováveis, já que o dólar mais caro pressiona a inflação.
O que considerar agora
- Não venda por impulso: se você tem um prefixado ou IPCA+ para o longo prazo, vender agora significa realizar a perda.
- Reserva de emergência: deve ficar em aplicações de liquidez diária e baixa oscilação, como o Tesouro Selic ou CDBs com liquidez diária.
- Para novas compras: taxas mais altas tornam a renda fixa mais atraente, mas títulos longos continuam sujeitos a oscilações até o vencimento. Avalie o prazo em que você realmente pode deixar o dinheiro parado.
- Diversificação: casas como a XP sugeriram combinar pós-fixados, títulos atrelados à inflação e prefixados de prazo curto, além de manter parte da carteira no exterior.
Entenda também por que a bolsa e o dólar reagiram com tanta força.