Nos últimos dias, uma expressão dominou o noticiário econômico: risco fiscal. Ela foi apontada como a principal razão para a pior semana da bolsa desde 2020 e para a maior alta semanal do dólar desde 2008. Mas o que ela significa, e por que afeta até quem não investe?
O que é risco fiscal?
O governo funciona, em parte, como uma família: tem receitas (impostos) e despesas (salários, aposentadorias, saúde, educação, juros da dívida). Quando gasta mais do que arrecada, fecha o ano no vermelho e precisa pegar dinheiro emprestado. Faz isso vendendo títulos públicos, os mesmos do Tesouro Direto.
Risco fiscal é a dúvida dos credores sobre a trajetória dessas contas. A pergunta que o mercado faz é: a dívida vai crescer de forma controlada ou pode sair do controle? Quanto maior a incerteza, maior o risco percebido.
Não se trata de um calote iminente. O ponto é que, diante da dúvida, quem empresta exige uma compensação maior, e esse prêmio se espalha por toda a economia.
Como o risco fiscal chega aos juros?
Se um investidor acha que emprestar ao governo ficou mais arriscado, só aceita comprar títulos públicos se a taxa for mais alta. Isso aparece primeiro nos juros futuros (os contratos de DI negociados na B3), que refletem quanto o mercado espera de juros nos próximos anos.
Na quinta-feira (29), por exemplo, os contratos com vencimento entre 2031 e 2035 fecharam com taxas acima de 15% ao ano, bem acima da Selic atual, de 13,75%. Esse descolamento indica que o mercado cobra um prêmio pela incerteza. Foi por isso que as taxas do Tesouro Direto dispararam logo depois da eleição.
Por que o dólar sobe?
Investidores estrangeiros e brasileiros comparam o retorno de aplicar no Brasil com o risco de fazê-lo. Quando a incerteza cresce, parte deles prefere tirar o dinheiro do país ou se proteger comprando dólares. Mais gente procurando a moeda americana significa dólar mais caro.
Na última semana, segundo a B3, quase R$ 7,6 bilhões saíram do mercado de ações em apenas três pregões. O dólar à vista terminou a sexta-feira (30) a R$ 5,446.
E por que a bolsa cai?
Há dois efeitos principais:
- Concorrência da renda fixa: se títulos públicos pagam mais de 15% ao ano, aplicações de risco como as ações ficam menos atraentes.
- Lucros futuros valem menos: juros altos encarecem o crédito das empresas e esfriam o consumo. Além disso, o valor de uma ação depende dos lucros que ela vai gerar no futuro, e esses lucros “valem menos” hoje quando os juros sobem.
O que o mercado observa agora?
Em momentos assim, investidores acompanham sinais como a escolha da equipe econômica, as regras para os gastos públicos, a meta de resultado primário (a diferença entre receitas e despesas, sem contar os juros) e a evolução da dívida em relação ao PIB. Sinais de compromisso com o equilíbrio das contas tendem a reduzir o prêmio de risco; sinais de afrouxo, a aumentá-lo.
O que muda no seu bolso
Mesmo sem investir, você sente o risco fiscal: ele encarece o financiamento da casa e do carro, pressiona os preços de produtos importados e pode atrasar a queda da Selic, mantendo os juros do cartão e do empréstimo pessoal elevados.
- Para quem investe em renda fixa: títulos novos passam a pagar taxas maiores. Já os títulos prefixados e atrelados à inflação que você já tem podem mostrar perda no extrato, mas quem leva o papel até o vencimento recebe a taxa contratada.
- Para quem tem ações: períodos de risco fiscal elevado costumam trazer volatilidade. Decisões tomadas no susto tendem a cristalizar perdas.
- Para quem tem dívidas: priorize trocar dívidas caras por mais baratas antes que as condições de crédito piorem.
Este conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.